3/17/2013

5 horas da manhã. ele acorda e o suor escorre em gotas grossas pelo seu corpo. respira ofegante, mais um pesadelo. levanta-se tendo vontade de se jogar ao chão e vai para cozinha fazer um café (já havia decidido não dormir mais).
a cafeteira enche o ar de sons e cheiros e ele vai se sentindo ligeiramente melhor. senta-se ao computador e abre seus emails. a profunda vontade de se desligar do universo em que não se sente mais conectado perdura mesmo a essa hora da madrugada. se sente só nele mesmo. ninguém teria a capacidade de lhe fazer companhia em todo o vazio que se escondia dentro de sua personalidade.
os spams consumiam seu tempo e eram as únicas coisas que preenchiam sua caixa de emails. entra no facebook e não vê movimentação alguma.
o sol vai acabando de nascer e ele se deita depois do rápido banho. fecha os olhos mas não dorme. pensa e no pensamento descobre algo que lhe faz entender o porque de toda a sua angústia: depois de nascer, ele nunca pôde ser ele mesmo.

2/06/2013

Um conto feito por mim em 2005. Eu sempre escrevi para mim mesmo, como uma ordem de "ACORDE SEU IDIOTA". Esse conto vem para afirmar isso, para mostrar pra mim mesmo que é preciso começar a viver antes que a vida chegue ao fim, que é preciso olhar para fora e para de se preocupar com o mundo interior.


IX - O Abutre

            O sol brilhava como todos os dias mas ele sabia que cada pessoa podia ver o sol de maneira completamente diferente assim como todas as outras coisas que existem. Para ele, o sol era nada mais que a estrela central de nosso sistema solar, não lhe inspirava a poesia e nem à liberdade.
            Rudi gostava de existir em seu mundo extremamente limitado onde toda e qualquer aventura estava além de suas forças. Caseiro, era guiado por sua hipocondria que falava muito mais alto que todas as suas vontades mais absurdas.
            Em um dia mais que normal, ele caminhava até o seu trabalho sem pensar muito em coisas importantes mas preso em uma ansiedade monstruosa que lhe vendava os olhos. Rudi não tinha amigos e se pudesse não trabalharia também, ficaria em casa, longe do convívio com qualquer ser humano. Em sua caminhada diária (ato que para ele era a única coisa que o salvava de problemas mais sérios de saúde) ele não costumava ver muita coisa diferente. Um cachorro latia do outro lado da rua e uma mulher grávida estava agora sentada ao meio-fio, tomando água de uma garrafa térmica. Nesse momento, Rudi percebeu que a sua perna direita havia ficado completamente dormente, uma dormência repentina e extremamente forte. Era impossível ficar de pé. Ele caiu e ficou ali sem saber o que fazer. Com certeza a mulher do outro lado da rua achava que era mais um bêbado, ainda mais pelo jeito desleixado que Rudi costumava se vestir.
            Não podia gritar pois não queria as mãos sujas de ninguém tentando lhe ajudar. Rudi pensou que era finalmente o momento de sua morte. Estava passando muito mal mesmo. Seu estômago produzia um forte desconforto, não dor, mas algo tão incômodo como ou até mais forte.
            A boca se abrira para um grito que não saiu. Metade do corpo de Rude estava completamente imobilizado por uma coisa que ele não sabia o que era. Ele percebia os dedos frios de uma morte anunciada diariamente encontrarem finalmente o seu corpo. Estava caído na rua, não sabia o que fazer.
            Naquele momento, ele se lembrou de tudo o que havia feito as pessoas que o amavam e soube que de uma forma ou de outra, tudo o que fazemos volta pra nós de forma amplificada.
            Há alguns anos Rudi era casado com Mina, uma garota realmente muito companheira e bonita. Tudo o que Mina mais queria era ter um filho mas Rude não queria perpetuar a sua doença, ele não queria um herdeiro para toda a sua fortuna, para tudo o que tinha: seus enigmáticos problemas de saúde.
            Ele gritou com Mina quando ela tentou conversar com ele em uma noite de primavera. A luz enfraquecida do abajur aclimatava o quarto para tudo, menos para as palavras que ela estava ouvindo. O choro lhe veio como uma explosão de tudo o que estava reprimido em muitos anos de casamento. Ela gritou com ele como resposta, e mesmo estando tarde da noite ela resolveu ir embora deixando-o sozinho com as suas companheiras invisíveis.
            No dia posterior ele resolveu se castigar de forma quase impensada parando de comer. Não houve fome naquela semana e com certeza mais uma enxurrada de doenças levava embora a sua vida.
            As árvores plantadas no jardim, as flores que cresciam maravilhosamente sem a ajuda de ninguém, a lua em sua beleza enigmática, nada era apreciado por Rudi. O gosto de metal da civilização era bem mais forte que a poesia viva que o circulava. Seus irmãos e seus pais estavam afastados pois ele não os queria por perto. Mina havia ido embora. A única coisa que ele realmente amava era o seu mundo, um amor negro e vazio que o sugava os minutos.
            Caído ali no chão, Rudi se conscientizou que pela primeira vez na vida estava realmente tendo um problema, algo que não era gerado pela sua mente, mas que estava dentro de seus órgãos. Ele não queria pensar, pensar fazia o seu intestino ficar mais esquisito e aumentava a grande força do sentimento que estava tendo. A mulher grávida já havia se convencido de que não era um bêbado e sim um jovem senhor tendo uma espécie de convulsão. Ela foi em sua direção e começou a gritar por ajuda.
            Rubi estava vazio por dentro, ele queria sentir a mão de Mina em seus cabelos, como ela gostava de fazer quando ficavam abraçados. Queria sentir o cheiro das flores que sempre estiveram ali e nunca foram aproveitadas. Queria naquele momento poder abraçar algo que nunca desejara, um filho seu.
            A dormência se tornava tão grandiosa que ele não sentia mais o seu estômago e nem o seu intestino. Os braços e as pernas estavam paralisados assim como todo o resto de seu corpo. O rosto virado para cima, mantinha os olhos fechados em sinal de profunda ausência. Rubi estava se preparando para morrer.
            E como último ato, como se fosse uma rápida corrida de volta para uma última espiada, ele juntou toda a força de vontade que ainda lhe restava e abriu os olhos. Ele viu o sol, como nunca tinha visto até aquele dia. Viu a sua própria vida emanando de estupenda força que brilhava no céu e nos raios que saiam dele. Viu a liberdade que ele tinha de iluminar tudo sem precisar pedir. Rubi estava maravilhado com o azul do céu, com as esporádicas nuvens que o adornavam e com as aves que voavam alto. Viu também as folhas de uma árvore que estava perto balançando enquanto o vento batia nelas como uma carícia constante.
            Os olhos foram fechando devagar. A visão de pessoas tentando lhe ajudar era a sua derradeira imagem. Mas uma coisa aconteceu sem que ele pudesse entender, o som dos galhos daquela árvore que havia visto segundos antes estavam sendo percebidos por ele agora. E como eram bonitos e suaves aqueles sons. Eram a única coisa que preenchia a sua mente além dos momentos não aproveitados da sua vida que lhe passavam como flashs. Os sons foram ficando cada vez mais constantes quando ele ouviu uma sirene de ambulância. Não adiantava, Rudi já se sentia sem concerto por causa dos danos em seu corpo que com certeza deveriam ser muitos.
            Sentiu mãos que o seguravam e percebeu que novamente havia recuperado o tato. Tentou abrir os olhos e conseguiu, mas a visão foi apenas o cinza de um teto. Não sentiu mais nada por muito tempo.
            —Rudi. Acorde Rudi. Abra os olhos por favor!
            Em seu estado de torpor ele apenas reconhecia levemente uma voz em seus ouvidos. Não se lembrava de nada por muito tempo enquanto esteve perdido em sono constante. De repente, a sensação de estômago vazio e um gosto estranho foram percebidos e o ar resolveu parar por um instante, logo quando ele mais precisava.
            Rudi abriu os olhos e viu um rosto entristecido lhe velando. Era a sua mãe. Ao seu lado estava Mina e um olhar de misericórdia. A doença sempre trazia todos de volta, sempre o tornara o centro das atenções e era isso que ele queria de forma impensada.
            Ele olhou em volta e percebeu que estava internado e parecia que estava ali por muito tempo. Tubos saíam do seu corpo e entravam em máquinas. Suas mãos estavam magras e sua pele extremamente branca. Rudi, pela primeira vez percebeu a realidade do que é estar doente e incapaz.

10/15/2012




Duras, as palmas acolhem o pó
Chove, porém não há som...
Caolho, desenvolve passos
Entreaberta, a porta lhe aguarda

Só, aconchega-se no desespero
Gelado é até o vento que a chama empurra
Esfarelada, a pele dos lábios se estica
Luminosos, os dentes conhecem o sol

Ele encerra todo fim, último!
Ele descobre então assim, sóbrio,
Já tão perto de cair, morto...
Que não há de quem partir.

9/25/2012


A sensação de viver impregnado pela cautela me dominou por completo. Nada é perigoso, tudo é calculado em seus prós e contras nos mínimos detalhes. Quando há uma real possibilidade de ruína, por mais sutil que seja, afasto a idéia.

A cautela, essa em específico, pode ser confundida com o medo. No meu caso, a cautela é a pura evolução de um medo crônico que me acompanha desde que me entendo por ser pensante.

A vida se torna um quadro em sépia profundo quando se vive em cautela. O momento mágico é aquele em que ao voltar do trabalho, bebe-se café assistindo TV, programas repetidos aos quais já são conhecidos começo, meio e fim.

Eu sou bom em começar coisas. Péssimo em terminar.
Nunca consigo me desprender de algo que não dá mais para sustentar.

Eu sou também perfeito em me esconder. É comum eu passar dias inteiros sem ser eu. Na verdade, acho que eu já morri em meio à cautela, ao morno, ao conforto cortante que sufoca.

Hoje foi difícil. A angústia foi tão forte que eu a sentia correndo nas artérias. Senti meus pulsos borbulhantes, um desespero que não podia continuar. Dirigi por algum tempo em total anestesia. Catatônico, não sabia para onde estava indo. Até que tracei um destino, apenas para poder ir até ele.

Senti vontade de pegar a estrada. Ir até qualquer lugar. Voltar logo depois (não conseguirei nunca partir sem olhar pra trás) para a mesma cautela de sempre, para o mesmo medo, confortável medo.

Então eu ouvi uma música, que me lembrou de um livro, que me lembrou de uma cena de um filme e então eu me senti um idiota. Pela primeira vez em muito tempo (anos eu acho) eu consegui chorar por alguns segundos. Não lágrimas escorrendo. Choro mesmo.

Respirei mais livre depois dessa merda toda.
Não sei o que o futuro me reserva, mas vou começar a ensaiar alguns atos não cautelosos. Quem sabe um dia eu me lembre de quem eu deveria ser.


8/09/2012

Como uma sombra
Me falta substância

Como uma imagem no espelho
Sou o decalque do que deveria


5/28/2012

Precisar estar alerta o tempo inteiro é um grande problema para quem não está em meio a uma guerra. Porque será que eu sempre estou com a guarda levantada? Eu Pereira de dormir novamente. Não consigo desligar. Acho que preciso de ajuda.

4/15/2012




Tarde da noite, na pequena cidade de Edimburgo dos Sete Mares, John Lavarello caminhava por uma das poucas ruas da cidade que se resumia a menos de 300 habitantes. Ele se sentia sozinho por mais que estivesse cercado por sua família e seus amigos. Absolutamente nada que havia acontecido em toda a sua vida havia lhe chamado a atenção. Ele desprezava sua vida sem valor.


Tentando lidar com o vazio, John imaginou o que poderia acontecer se inesperadamente ele desaparecesse. Sentiu que ninguém notaria sua falta com poucas exceções. Claro, essa previsão se baseava nas horas ou dias que se seguiriam a seu sumiço. Meses depois todos os habitantes já estariam tentando recordar-se do que o jovem mal encarado e quieto fazia.

John acende um cigarro enquanto olha ao longe algumas ondas mais altas se quebrarem. O dia seguinte será feriado, não há nada pra fazer a não ser se sentar em algum lugar e beber até ficar dormente.

Ele se levanta com uma dificuldade anormal. Não sabe o que está acontecendo. Suas pernas não lhe obedecem mais. O chão se aproxima do seu rosto rápido demais para mesmo emitir um grito e, no instante seguinte, quando recobra os sentidos, está no chão, de bruços e com a cabeça virada para o lado. Não consegue mover nenhum músculo. Nem mesmo pisca. Sua pele esquenta e fica vermelha. Sua respiração e batimentos cardíacos se reduzem tanto que quase são imperceptíveis.

A noite passa e John nada pode fazer. Apenas olha a paisagem solidificada de sua cidade ao dormir.

Quando o sol começa a aparecer, fazendo seus olhos doerem com suas pupilas dilatadas e solidificadas (o que permite a entrada de uma quantidade anormal de luz), as primeiras pessoas começam a sair de suas casas. Não demora muito para alguém encontrar seu corpo.

- Oh meu deus, alguém se feriu!
- Ele está morto?
- Não sei...
- Encoste nele homem! Se ainda estiver vivo, temos que tentar salva-lo.

Os batimentos do coração e a respiração nem são percebidos, mas quando viram John com o peito pra cima para tentar uma massagem cardíaca, percebem que sua pele está quente. Como se queimasse de febre. Concluem que ele está vivo, mas não conseguem explicar como. O levam para a enfermaria da cidade e tentam faze-lo melhorar.

Nos calendários da cidade, o ano de 1965 se perdia à deriva, como uma embarcação em alto mar.

Deitado na cama com seus olhos semi-abertos, John se espantou em ver seus pais se revezarem com seus irmãos para cuidar dele. Rezando todos os dias, dando banho em seu corpo paralisado e que teimava em não esfriar, mesmo com medicamentos fortes para a febre.

Amigos o visitavam sem parar. Deixavam presentes, dinheiro, remédios. Choravam muitas vezes. Mas John não conseguia se mover mesmo assim.

Os anos se passaram e John podia ver que seus pais aparentavam cada vez estarem mais velhos. Seus irmãos antes pequenos tornaram-se adultos, passaram a lhe visitar com as esposas, depois com os filhos e com os netos. Primeiro sua mãe não vinha mais e seu pai, muito velho e debilitado conversava com ele dizendo que brevemente não estaria mais ali para cuidar dele. Beijava-lhe a testa sempre quando chegava e quando partia.

John viu seus irmãos ficarem com cabelos brancos e magros. Os viu sendo trazidos com a ajuda de seus netos, que já estavam casados e com filhos. E por fim, nenhum de seus irmãos ou amigos vinham mais vê-lo.

Mudaram-lhe para um outro quarto. O teto era mais baixo, mas o cheiro era melhor, mais fresco. Os médicos usavam cortes de cabelo diferentes. Suas roupas mudavam muito de estilo enquanto ele observava os dias passarem.

E os bisnetos de seus irmãos ficaram velhos e carecas. Ele nunca mais os viu de um tempo em diante. Ficava lá, deitado sozinho, queimando de febre, respirando quase nada e com o coração praticamente parado.

Uma forte chuva começou a cair do lado de fora. John piscou brevemente. Sentiu frio e percebeu que seus dedos voltavam a ter tato.

Levou dois meses para John conseguir se movimentar normalmente, dobrando suas articulações há tempos paradas. Sua respiração e batimentos cardíacos voltaram ao normal. John não havia envelhecido nem um dia sequer. Até o pequeno corte em sua face, que aconteceu quando caiu no chão, ainda estava lá.

Caminhou até uma tela colorida que mostrava as horas e a data.

5 de abril de 2193.

Chorou. Havia perdido tudo no tempo, evaporado diante de seus olhos. Tudo o que ele tinha e que ele nunca havia prestado a atenção. Todos os bens que ele nunca mais poderia recuperar: as pessoas que o amavam.

Não há relatos de nenhum caso médico parecido com o de John em todo o mundo. Sabe-se apenas que ele entrou em uma espécie de condição de hibernação extrema que pôde ser revertida naturalmente depois.

Quando ele finalmente saiu do hospital, a pequena ilha de Tristan da Cunha não era mais a mesma. Não tinha nem um décimo da beleza e poesia de antes.

Ele foi levado a seus parentes ainda vivos. Descendentes de seus irmãos.

Morreu com 105 anos de idade (se forem subtraídos os anos em que ficou hibernando). Casou-se logo, teve 5 filhos e amou a todos a cada minuto de seus dias.

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Todos somos especiais. Por mais que a vida não reserve nada de estupendo ou grandioso, o fato de estarmos vivos é em si um maravilhoso motivo a ser comemorado.
O amor é a lei universal. Está acima de todas as leis e mandamentos.